quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Lutar contra o racismo, e não alimentá-lo.


Tem-me preocupado algumas posturas no combate ao racismo no Brasil, e me sintonizei em muito com a crónica do António Paim, no "Estado de São Paulo", com um ou outro porém.

Se aqui sempre tivemos a mania de importar tudo dos americanos, dos modismos aos inimigos, parece que até na forma de lidar com o racismo queremos fazer o mesmo.

Me preparava para escrever algo sobre as cotas para negros ou descendentes de negros (mestiços, pardos (!)) para entrar na faculdade quando achei que devia antes reproduzir esta crónica para um dia destes escrever então algo mais específico sobre o tema.

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Discutir e condenar o racismo emergente

Antonio Paim

Entre nós, a discussão substantiva de certos temas deixa muito a desejar. Atribuo a circunstância a certa acomodação com o patrulhamento ideológico, vigente em áreas da universidade e instâncias do governo, notadamente da educação. Essa acomodação pode ter resultado de duas coisas: reconhecimento da inutilidade do gesto ou graças à "cortina de ferro" que se tem conseguido estabelecer em torno daquilo que incomoda.Não parece muito difícil verificar que o patrulhamento hoje é igual ou maior do que o que existia em 1978, há 30 anos, portanto, quando a censura a um texto de Miguel Reale, na PUC do Rio de Janeiro, provocou grande celeuma, refletida no título do livro que editei, reunindo artigos dos dois lados - Liberdade Acadêmica e Opção Totalitária: um Debate Memorável (Artenova, 1979). Desapareceu mesmo foi a discussão pública.Chamo a atenção para esse aspecto com a intenção de evitar que se construa uma cortina de silêncio em torno das teses apresentadas por Antonio Risério em A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros (Editora 34, 2007). Acham-se extremamente bem documentadas e são as seguintes: os atuais movimentos negros renegaram a tradição da abordagem do assunto, que, no Brasil, estava centrada na questão da cor. O máximo que se pretendeu nessa matéria consistiu em recomendar o branqueamento, que não deixava de ser uma capitulação diante da mistura, da mescla, da miscigenação. Mais importante que essa advertência é a comprovação de que se trata simplesmente de macaquear modelo alienígena.Transcrevo: "Não devemos desconhecer a realidade em que nos movemos. Não devemos ceder à tentação das fantasias fáceis, dos truques ideológicos, dos artifícios jurídicos, dos maniqueísmos simplificadores. Não devemos nos contentar com a transposição mecânica, para a realidade sociorracial brasileira, de discurso político-acadêmico em vigor nos EUA, cujas história, formação e situação são radicalmente dessemelhantes da nossa experiência como povo e nação. Pelo contrário: temos de recusar o imperialismo cultural norte-americano, que pretende universalizar os seus modelos e os seus particularismos. E temos de partir de nós mesmos. É por isso que insisto que não temos nenhuma forte razão para substituir o rico espectro cromático brasileiro pelo rígido padrão racial norte-americano - ainda mais que, nos EUA, cresce a mobilização em favor do reconhecimento social da existência de mestiços, com um número cada vez maior de pessoas reivindicando a inclusão da categoria mixed-race no censo (e no senso) da nação. De outra parte, acho que não devemos perder muito tempo fazendo essas comparações. Esclareçamos as coisas básicas e, depois, o melhor é deixar os EUA de lado - e nos concentrarmos em nossos muitos e urgentes problemas. Mas o certo é que ninguém vai entender o Brasil se não encarar, em toda a sua abrangência e complexidade, os fenômenos fundamentais da mestiçagem e do sincretismo" (edição citada, pág. 411).Risério procurou reconstituir toda a discussão em torno da escravatura, inclusive a noção (perdida) de que a sua aceitação não se limitava à "classe dominante", sendo inclusive prática existente e reconhecida entre os próprios escravos. Essa recuperação se estende ao movimento abolicionista. A contribuição dos africanos à nossa civilização se acha suficientemente valorizada, sem embargo da ênfase na falta de sentido de deixar de proclamar que a descendência reconhece (e proclama) ser brasileira.Detém-se também no que denominou "movimentos negros hoje", buscando recuperar antecedentes imediatos esquecidos. A transição da tradicional classificação da população, como sendo de cor, para denominá-la "negra", se encontra fartamente documentada e discutida. Denuncia com propriedade a falácia de seus defensores ao afirmar que estariam passando do "biológico para o político" como "artifício ideológico para neutralizar ou encobrir o fato genético, a mistura de genes". A conclusão é a seguinte: "O racialismo neonegro, que vinha há tempo conseguindo algum espaço no governo federal, deixou o entrincheiramento burocrático e se instalou abertamente na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, desde a posse de Lula."A substituição do nosso comportamento tradicional pelo modelo norte-americano introduz em nosso meio postura nitidamente racista. Não se trata, como adverte Risério, de negar a existência de preconceito entre nós. Mas de destacar que corresponde a preconceito de cor, condenável enquanto convicção individual. À sociedade compete impedir que se transforme em discriminação, que só poderia resultar de uma ação coletiva, o que, aliás, nunca houve no País. Não se tem notícia da existência de algo parecido com a norte-americana Ku Klux Klan.O que me parece mais grave no racismo de tais movimentos consiste em que as políticas que têm conseguido obter correspondem a equívoco funesto. A médio e longo prazos, trarão prejuízos definitivos tanto a instituições como a indivíduos. É óbvio que a obtenção de títulos acadêmicos, mediante ingresso na universidade por meio de cotas, disseminará indevidamente a pecha de incompetente a pessoas que, sendo bem dotadas, poderiam alcançá-los sem benesses. Quanto ao acesso à universidade dos que, por dificuldades econômicas, não tiveram condições de se preparar de forma a enfrentar a competição, a política adequada consiste em proporcionar-lhes bolsas que lhes permitam ingressar pela porta da frente.


Antonio Paim é presidente do Conselho Acadêmico do Instituto de Humanidades. Site: http://www.institutodehumanidades.com.br/


Fonte da imagem: Revista Espaço Acadêmico

Um comentário:

marta disse...

speechless... nem sei bem o que dizer.. existem cotas para a entrada no ensino superior para...pessoas!!!!!!!
por favor, se compreendi mal digam-me rapidamente para ficar sossegada...
no país onde o sol é rei não sei como é possivel a pele não queimar.. se calhar só se queimam as pestanas, mas não está a resultar..
onde querem ir buscar o desenvolvimento? aos EUA? Bom são do mesmo continente..Mas vai daí a Russia tambem faz parte da europa e nem por isso a praça Vermelha caberia no Terreiro do Paço, ou as escarpas do Douro dariam cereais para o vodka ou o vira virava troika.
ou seja, é dificil compreender desenvolvimento sem a história, a nossa memória colectiva, o nosso autoconhecimento. Ao dizermos "nós somos..." raízes nós temos. E como é possivel tudo isto? com a educação.A educação permanente, regular, o gosto pelo saber, a certeza da inclusão do ser no real - o combate contra a alienação,o segementarismo ridiculo da divisão a que nós humanos temos tendência para. A individualidade tácita a cada individuo não é uma "pecha" é a abertura do futuro que nos une, são pólos diferentes que se atraem, é a nossa génese. Sem passado não há futuro e apesar disso há quem queira manter uma amnésia colectiva e fazer introduzir um "pastiche" de mau gosto que nem Duchamps se o virasse ao contrário o conseguiria fazer figurar nas páginas da história.
O caminho humanista, que eu vejo como um dos mais justos, não diz respeito a um egocentrismo filantropico, mas olhar para nós (homem), como a chave do mistério - da solução - e tentar reparar (talvez não seja tão dificil) nas diferenças e nas semelhanças. Garanto que caminham par a par.
E não será isto extraordinário, nós querermos conhecer pessoas DIFERENTES, lugares DIFERENTES, todavia sempre iguais porque são da nossa cidade, do nosso país, do nosso mundo e no entanto só resultam se forem DIFERENTES.
É premente a educação, o desenvolvimento, a diferença.
Brasileiros não fiquem sentados e calados.. Quantos de voces são pretos, negros, neonegros, brancos, pálidos, morenos, gordos, magros, neogordos, neomagros, assim a assim (ridiculo), etc.? pelo que li quero acreditar que até nem são assim tantos...
Vá deêm o grito do Ipiranga.......