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domingo, 12 de outubro de 2008

Memórias de José Moreira de Carvalho



Meu Caro Zé Paulo,
Nestes tempos conturbados de turbulência financeira global onde os banqueiros e grandes investidores arrancam os cabelos vendo fugir os seus milhões, e os normais, como nós, vão pagando o pato, me lembrei de te mandar uma ou outra piada da nossa antiga África que outro sentido não tem senão descontrair o dia a dia.
Vamos lá: Em Vila Pery, no bar do Joaquim frente à estação, sempre ia o Estevinho, contador do Grémio, que era um copo de primeira e que ao fim da tarde já estava pra lá de Bagdá, mas sempre muito bem comportado.
Certo fim de tarde, o nosso Amigo lá estava e apareceram dois caras da SOALPO, gêmeos iguaizinhos e pediram uma bebida.
Diz o Estevinho: "Joaquim, eu devo estar muito bêbado...estou vendo tudo a dobrar!!!"
- Nada, - diz um dos rapazes - é que nós somos gêmeos...”
- Ó quê... os QUATRO?

Um abração e bom final de Domingo do Tio Zé.

domingo, 29 de junho de 2008

«Ricardo Rangel, Ferro em Brasa»


Navegando pelos blogues, cheguei a um post do Caminhos da Memória, onde fala de um documentário de Lecínio de Azevedo - brasileiro radicado em Moçambique - que conta a história do grande fotógrafo-jornalista Ricardo Rangel.
No fim deste post da Diana Andringa, é colocado um link para se ouvir um jazz que me fez relembrar grandes momentos - tudo que nos faz saudade, fica grande - onde vi o Ricardo Rangel e o meu Pai ouvir o Louis Amstrong, e outros, na nossa casa, no Macúti, na Beira.
E neste momento, que o José Moreira de Carvalho me presenteou recentemente com um texto para o Lanterna Acesa, lembro-me também que o mesmo havia ficado com uma grande parte da coleção de LP's de Jazz do Pai, quando nós em 1975, já o Pai havia falecido em 1972, viemos definitivamente para o Brasil, e quando em 1978 o José Moreira veio também para o Brasil, repassou esta mesma coleção de LP's para o Ricardo Rangel.
Soube pelo prórpio Ricardo Rangel, quando nos visitou em 1996 aqui em Curitiba, que ainda tinha estes LP's na sua (re) conhecida discoteca particular.
Sobre o documentário, farei de tudo para o poder ver. Afinal o Ricardo Rangel é responsável por grandes registros da história de Moçambique, é história de Moçambique, e faz também parte da história da minha família.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Zonué e Gouvêa Lemos por Moreira de Carvalho

Clique sobre a foto para a ver em tamanho maior...

Esta semana, conversando com o Tio Zé Moreira, hoje em Natal, Rio Grande do Norte, ao relembrar o Zonué, onde tive a oportunidade de morar um período em casa destes Tios muito queridos, Zé e Augusta, na década de 60, pedi-lhe que me escrevesse algo sobre esta região moçambicana.
O mesmo me propôs relatar um episódio passado lá com o meu Pai.
Pão com mel ! Adorei a idéia e no dia seguinte já cá tinha o texto.
Depois foi só ir ao antigo álbum de fotografias e encontrar uma que representasse bem o tema e encontrei uma onde se vê a casa da Herdade Boa Entrada, o casal José e Augusta Moreira de Carvalho, sócio no. 01 da COOP – Cooperativa de Tabaco do Chimoio, o sr. Abreu, técnico da Cooperativa, e a sua esposa, e o casal António e Madalena Gouvêa Lemos (da esquerda para a direita).
Como algo interessante, embora fora do contexto, o José Moreira de Carvalho, depois da Independência de Moçambique, como estrangeiro cooperante, ficou dois anos como técnico responsável pela produção, função anteriormente exercida pelo seu amigo Abreu que já havia partido para Portugal.
Mas hoje, o “post” foi-me dado de presente e está reproduzido abaixo.
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Zonué se chamava a região moçambicana onde se localizava a minha fazenda.
Ali eu, minha Mulher e Filhos, vivemos durante duas décadas, alguns dos anos mais felizes de nossas vidas. Mas não é isso que quero falar agora.
Me pediste para te falar de uma crônica para o NOTÍCIAS DA BEIRA que da minha fazenda o teu Pai, o saudoso Gouvêa Lemos (mais meu irmão do que cunhado...) escreveu e que de certo modo me dizia respeito.
Era final dos anos sessenta, começo ou meados de Novembro. Havia mais de um mês que não chovia em toa a região de Chimoio e Manica, e nós agricultores estávamos desesperados vendo morrer pela seca todas as nossas plantações, no meu caso, de tabaco "virginia". Teu Pai tinha chegado uns dias antes para "cobrir" a grande seca e fazendo base em minha casa, todos os dias percorria outras fazendas de região, ouvindo os agricultores e constatando os prejuízos.
À noite, quando regressava, nos sentávamos no jardim, tentando apanhar um pouco de fresco, bebendo um "copo", e ele relatando o que tinha constatado. Só comentávamos a desgraça que a seca estava causando, a falta de apoio do governo aos agricultores, que se desesperavam sem saberem como iriam pagar os seus compromissos, financiamentos, etc. ... Eu então não parava de me lamentar.
Acontece, que ao fim de mais de trinta dias, a chuva veio em uma noite exatamente quando estávamos batendo papo no jardim. Veio pra valer! Ninguém arredou pé ou correu para se abrigar na varanda. Todos, eu, a minha Mulher e os teus Pais (a tua Mãe também tinha vindo) e até o Justino e o Moresse, meus empregados de casa, ninguém arredou pé pois todos queríamos receber aquela chuva , tão ansiosamente esperada, e que na realidade se tornava a salvação da lavoura, como se costuma dizer.
Choveu abundantemente durante mais de uma hora. Quando parou nos limpamos, trocamos alguma roupa encharcada e então sim, as lamurias, preocupações e desespero que uma hora antes eu não parava de lamentar, deram lugar a uma euforia da minha parte. Eu sabia que, no dia seguinte, a minha plantação estava salva e que logo cedo eu podia percorrer o campo e ver as plantinhas de tabaco, que anteriormente mal se viam, todas verdinhas e prontas a se desenvolveram normalmente e prometerem uma boa colheita!
No dia seguinte fui ler a crônica que o teu Pai havia enviado para a redação do Jornal. Claro que não me lembro de tudo que ele escreveu; mas recordo-me bem de uma parte, depois dos comentários sobre as dificuldades dos agricultores em face a falta de políticas de apoio do governo, que dizia mais ou menos assim: ontem à noite um agricultor que me é fraternalmente muito querido, após aquela chuva abençoada já se esquecia da seca, dos prejuízos, das dividas de safra, enfim, de tudo o que minutos antes o atormentava, e cheio de alegria e entusiasmo me falava dos seus projetos para o ano seguinte, compra de novos equipamentos agrícolas, aumento da área de plantação, ou seja de investir mais ainda no seu único patrimônio!
E terminava mais ou menos assim: "afinal os agricultores são como as crianças qualquer chuva os deixa eufóricos, cheios de esperança, como de tivessem ganho o brinquedo que tanto desejavam."
De dezenas ou até centenas de crônicas escritas pelo Gouvêa Lemos, esta escrita da minha fazenda, falou fundo no meu coração e sempre a recordo com muita saudade, a mesma saudade com que recordo o Jornalista mais integro e independente que passou por Moçambique, onde ainda hoje é lembrado com admiração e respeito.
Meu caro Zé Paulo, desculpa ter-me alongado tanto, mas entre muitas coisas que me faltam, me falta a sabedoria do teu Pai de saber escrever "muito" em poucas palarvras.
Um abraço do teu velho tio
José Moreira de Carvalho.